26 de Junho de 2009

Correspondências

Nesses tempos, em que todas as pessoas se aproximavam com interrogações maldosas na garganta, Lísia gostaria de convencer dizendo que perdeu a noção dos dias, que nem lembra de ter passado pela sua cama um sujeito de nome Lúcio, mas seria inútil inventar outras máscaras. Os vestígios da ausência eram visíveis no rosto, na maneira de segurar a xícara do chá, no jeito de olhar a rua pela janela. Trechos dela se desordenaram quando aquele homem partiu, ele carregou pedaços meus que não consigo resgatar, pensava.

Um mês. Um mês inteiro desde aquela mensagem e depois disso nenhuma linha mais. Insistia na revisão da caixa de e-mails, f5, f5, nada. Queria notícias, queria arrependimento, saudade, uma boa desculpa, um afago. Aos poucos ia retirando da sala as fotografias espalhadas e guardando-as nas gavetas mais próximas do chão, nas mais fundas e nas mais distantes do olho. A estação do frio já começava a dar as caras. Fazia quase um ano que aquele homem moreno aportou em seu consultório angustiado com o descontrole dos próprios pensamentos...

Bueno, querida, levanta desse sofá e segue a vida, oito consultas agendadas para hoje e não estás em condições de recusar pagamento. Forçou-se a vestir-se, a comer, a sair, a andar firme pela rua, a sorrir para os pacientes, a fingir uma serenidade que estava longe de abrigar, mas fez. Preparava-se para voltar para casa quando a secretária entrou na sala trazendo a correspondência. Entre cartões e contas de luz e água, um envelope azul, grande e recheado, com selo postal peruano e alguns carimbos de lugares que não conhecia. Remetente: Lúcio Morello.


Lísia, da estrada já me sinto confortável e menos confuso para contar das minhas razões para sair. Parti para procurar raízes, para achar as chaves da minha casa, para me buscar. Tu olhavas a mim pelos filtros das tuas orientações teóricas e filosóficas, dos compromissos da tua profissão e eu compreendo que era esse o teu jeito de me querer bem, lúcido e inteiro. Sou grato pelo cuidado, para sempre.

Preciso confessar que já há algum tempo havia parado com aqueles remédios, porque percebi que aquilo me anulava, me privava das sensações, e obviamente da experiência. Nunca servi no razoável. Fui desproporcional e desmedido desde a infância e me acostumei ao destempero. Depois de um tempo perto de ti e do teu equilíbrio, passei novamente a desejar o caminho, o campo aberto para ouvir, ver, tocar os outros lados e por isso, por querer recuperar antigas sensibilidades, foi necessário me afastar da tua lógica: para não te ferirem os meus absurdos.

Voltei a ter daqueles sonhos, os que me deixavam fora da órbita quando acordado, que me acompanhavam durante dias. Mas dessa vez foi diferente, foi maior, sabes? Não. Não sabes. Eram sonhos nítidos, com sequencia e cheios de detalhes, que não fariam diferença em relação aos outros sonhos, não fossem as estranhas coincidências que se seguiram.

Deitei cedo uma noite e sonhei com uma construção em pedra instalada no interior de uma clareira, num imenso vão de areia branca cercado de árvores. Era uma espécie de torre, quase uma pirâmide feita de blocos de pedra empilhados. A disposição desses blocos formava degraus até um topo plano, em que cabia pelo menos uma dezena de pessoas. Eu me vi parado na areia branca. Olhei os meus braços e percebi que a minha pele era escura, da cor de canela em pó, e que eu tinha cabelos negros, longos até a altura dos cotovelos. Estranhei, mas não pude pensar nisso, porque reparei nas pessoas que vinham do meio das árvores para se aglomerar em torno da construção. Elas também tinham cabelos como os que vi em mim, e a maioria usava adornos pelo corpo, algo de brilhante e de colorido, pedras e restos de animais, talvez.

Tive tempo de estranhar aquela gente e de cogitar a possibilidade de sonho, mas então surgiu da construção um homem muito forte e com a cabeça raspada. Tinha o corpo repleto de desenhos e os punhos enfeitados por cordões com pingentes amarelados, algo como dentes de bicho. Dominou a multidão com os olhos e um único grito. A voz desse homem me deixou em pânico. Entendi estar diante de um líder. De dentro da construção foi arrastado um rapaz que mal teria quinze anos. Senti o pavor no rosto dele, como se fosse meu. Lentamente o rapaz começou a subir os degraus, o homem falando e falando alto, para aquela gente e para alguém que não se podia ver, uma fogueira foi acesa no topo da pirâmide de pedra, o rapaz subindo, as pessoas recitando palavras incompreensíveis, uma agitação no ar, um desespero...

O rapaz diminuiu o ritmo do andar e olhou para trás, por cima dos ombros, direto nos meus olhos e teve o efeito do açoite. Compreendi o pedido de ajuda, a iminência do sacrifício pelo fogo, a impotência, o poder, o ritual, a limitação, a agonia. De repente me vi correndo em direção às árvores, entrando no mato e atravessando casinhas rústicas, valetas, lama e o olhar do rapaz sobre as minhas costas. Eu me afastava deles, mas ouvia o barulho de muitos pés batendo na terra, me perseguindo, me caçando. Eu corria e chorava porque sabia que o rapaz seria morto em oferenda a alguém e porque fui covarde. Chorava porque corria, mas corria para chorar. Eu não podia mudar aquilo. E aquele rapaz estava em mim. Acordei com o coração aos pulos.

Nos dias que se seguiram tornei a ver aquelas pessoas. Vi na rua, na televisão, na sacola do supermercado, na fila do banco. Eu vi. Recebi o postal de um colega, o Saulo, que cruzou o país e mais um pouco para chegar no México. A gravura do cartão era idêntica ao lugar do sonho. Escreveu para matar saudade, porque lembrou de mim na viagem, dizia no verso. Mas não localizava a referência. Fui ficando doido, curioso, encafifado, revirei o google, wikipédia e afins, estive na biblioteca pública, comprei livros sobre as civilizações pré-colombianas, eu podia jurar que tinha um tanto de índio aquele povo, e pensei ter juntado pistas. Tive vontade de conferir, de averiguar, de saber o que de mim poderia haver numa história dessas, eu que na escola sempre quis distância da História.

Continuei sonhando com cenas daquele lugar, com fugas em embarcações feitas de tronco de árvore escavado, com cavernas escuras, com pedaços de corpos espalhados no chão, com danças familiares, e me vi cada vez mais envolvido. Sabia que comentar contigo serviria para desconfiares da minha sanidade, do meu provável comprometimento mental, não tiro as tuas razões. As vezes também duvido de mim. O caso é que jamais conseguiria tocar a vida se deixasse pelo caminho tamanhas fissuras. Eu já sei como é isso: parece que está tudo bem, em ordem, mas de uma hora para outra as lembranças reaparecem como coices. Então preferi resolvê-las, ordená-las, dar-lhes significados antes de ser atropelado pelos cavalos. Os meus significados. Por isso fui. Arrependimento não posso dizer que sinto, mas a tua falta, sim. Funda. Perdoa o silêncio prolongado. Aposto que te virastes muito bem longe de mim. Me espera.
Um beijo.
Lúcio



* publicado em O céu riscado na pele, no dia 16 de maio.

13 de Junho de 2009

Dos círculos

Foi como quando entrei no mar. Naquele agosto cinza e imprevisível, ardeu o corpo e revirou o que estava posto, ainda que em desordem. Havia coisas desarrumadas, mas havia algo lá para ser visto, medido, julgado, desaprovado e expurgado, e logo, por intermináveis segundos, tudo em mim parou no marco zero, não andou para adiante nem para trás nem para os lados. Era anestesia da vida, de uma vida que vinha atropelando a si mesma, descendo ladeira abaixo. Nos últimos dias parece que voltei para aquela fenda entre mar e mundo e meu. Mas, e agora? Que há apenas espaço vazio, em preto ou em branco, a cor nem tem tanto sentido ou efeito. Que faço com essa cena aberta, suspensa, congelada, com esse espanto que não chegou a ser, com a angústia que desistiu de explodir, com a sensação do nada? Naquele ponto havia um vapor azul em cima da água, de braços aberto estendidos de uma ponta a outra do horizonte que cabia nos meus olhos, e acima um riso firme e estridente, que me mandava sentir, guardar a sensação e seguir o seco, sair do mar e botar os pés na areia. Era para ser aprendizado e entendimento. Acho que na ocasião até chegou a ser, mesmo, compreensão. Só que, de alguma maneira, quando percebi foi como estar de novo dentro da vertigem. Foi como quando entrei no mar.

22 de Maio de 2009

A pele serve de céu ao coração

No céu da minha pele escura
um risco vermelho à unha
é ferida permanente
que faísca e assobia
enquanto ninguém vem.